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Incrivelmente famoso pela sua inoperacionalidade

A catástrofe de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera, na zona Centro do País, que vitimou centenas de pessoas, queimando bens de valor incalculável e deixando grandes áreas de floresta em situação verdadeiramente lastimável, cuja recuperação só será possível com o passar do tempo, de muito tempo, leva-me a colocar algumas questões com o pensamento virado para a prevenção.

Desde logo, questiono o que já referi no meu anterior artigo, sobre a falta de ações preventivas de segurança a vários níveis, nomeadamente a ausência do fecho de circulação na “estada do inferno”, onde todas aquelas pessoas (64 até ao momento) perderam a vida.
Porque não foi aquela via encerrada ao trânsito de imediato, quando sabiam que o grau de perigosidade em caso de incêndio era imenso?
Quem não atuou em conformidade e porquê? Há justificações, de que o SIRESP não funcionou...! Pois!...

A verdade é que o País está de luto, chora os seus mortos e houve uma grande falta de atuação que poderia ter evitado a tragédia, ou pelo menos poderia ter reduzido a sua dimensão em termos de vítimas humanas.
Onde está a eficácia preconizada por esse sistema?
E a quem terão de ser assacadas responsabilidades pela sua ineficácia?

Volvidos alguns dias, poucos ainda, mas creio que será a partir de agora oportuno pedir-se esclarecimentos e exigir que assumam responsabilidades.

Para não me tornar fastidioso, vou fixar-me apenas no SIRESP - Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal, que ganhou uma publicidade imensa, precisamente, pela sua ineficácia ou insuficiência, quanto à emergência e à segurança exigidas.

Quanto custou o SIRESP, aprovado em Conselho de Ministro de 19 de março de 2003?
Dizem que mais de 700 milhões de euros só para a cobertura do Continente – Açores e Madeira à parte.

E na Resolução do Conselho de Ministros (que estive a consultar) lê-se que era previsível que o Sistema “tenha uma redundância dos elementos essenciais da rede que garanta uma disponibilidade operacional superior a 99,9%” em termos de emergência e segurança.
Ora, nada disso aconteceu, como se sabe!
Quem gerou o Sistema e que responsabilidade tem o vendedor quanto ao seu desempenho, sua eficácia, expectativas que alimentou e resultados que dele se esperariam?
Foram feitos testes de operacionalidade? Que resultados foram obtidos? Etc. etc. etc… - responda quem souber.

Entretanto fui procurar esclarecer-me um pouco mais sobre o que é o SIRESP e no site do projecto pode ler-se que o mesmo “consiste na concepção, fornecimento, montagem, construção, gestão e manutenção de um sistema integrado de tecnologia trunking digital, para a rede de emergência e segurança de Portugal”.

Pode ler-se também, que o sistema “permitirá responder adequadamente aos desafios colocados às forças de segurança e da proteção civil na sua atuação diária ou em cenários de emergência - catástrofes, acidentes ou incêndios de grandes proporções -, estando previsto o acesso ao sistema por cerca de 53.500 utilizadores.

Contudo, o sistema, para que funcione, precisa que as estações móveis assistentes estejam bem posicionadas e a funcionar, que os meios de comunicação estratégicos estejam absolutamente operacionais, tudo a cem por cento.

Creio que quem idealizou o projecto, deve ter previsto que os cabos elétricos, antenas, repetidores, etc, no terreno, poderiam ser afetados ou mesmo destruídos. Por isso, as comunicações deveriam ser asseguradas por um sistema paralelo alternativo, designadamente por meio de satélites e outros sistemas aéreos.

Logo, em caso de calamidade, como esta que assolou o Centro do País, em que os meios terrestres ficaram inoperacionais, será que a possibilidade de toda a comunicação ser garantida por via aérea ou por satélite esteve garantida efetivamente?

Enfim, muito mais perguntas poderiam ser feitas.

Para já, o SIRESP tornou-se famoso através da via através da qual nunca poderia beneficiar.

Falhou!...

As populações gozam do direito de serem devidamente esclarecidas, por que razões o SIRESP falhou e quem deve ser responsabilizado.

Assim espero que aconteça.

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