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Retalhos de vida

* Doutorando em História pela Faculdade de Letras da Univ. de Coimbra

Vim nascer ao Algarve nos arredores de Loulé, nos resquícios dos finais da Segunda Guerra Mundial, quando ainda havia racionamento de alimentos e se cozinhava a lenha, alumiando-nos o candeeiro de vidro a petróleo (uma modernice), já que ainda se alumiavam os mortos a candeia de azeite, que era a luz dos mais pobres de então.

Éramos o que restava de uma grande família que havia tido muitas terras cultivadas a força de braço e de besta para lavrar e acarretar os frutos e a lenha que serviria para cozinhar, e simultaneamente para nos aquecer naqueles dias invernosos continuados de chuva e de frio. Chovia meses a fio. Mal daqueles que não possuíam um bocado de terra e tinham que, às escondidas ir arrebanhar os secos das árvores de fruto alheios, de pasto e de moitas para prover a sua fornalha que lhes cozinhasse o pouco alimento que iam conseguido arranjar para mitigar a carestia alimentar endémica que sofriam, sem trabalho que existisse para irem ganhando alguns tostões para as necessidades mais básicas. Todos éramos pobres e remediados. Mas era a lenha o único combustível espalhado pelos matos que obviavam a nossa existência do dia-a-dia.

Viver no campo, e do campo era uma vida desgraçada nessas décadas do antes do final do século XIX, em que a 1.ª República mais enterraria o país a querer sair da monarquia, pleno de pequenas guerras civis por todo o país, quase à excepção do Algarve, terminadas as guerras do “Remechido”. Não havia volta a dar, pacificando-se o país a partir de 1933, com a subida de Salazar ao poder.

Para obviar à fome, Salazar inventou a “campanha do trigo” que mais exauriria os campos algarvios das suas potencialidades. Comíamos sardinha, carapau e pouca cavala, que era peixe azul e quase ninguém lhe pegava, a não ser os mais desgraçados. A única saída era fugirmos do Algarve em direcção a Lisboa, e outros “a salto” para França, ou ainda por “carta de chamada” para a Argentina, para aqueles que tivessem familiares por ali emigrados depois dos finais do século XIX.

O meu pai sabendo dessa vida de miséria passada pelos emigrantes em França, nada quis com ela, preferindo o possível conforto que a capital portuguesa lhe oferecesse. E assim, um dia fomos viver para Lisboa, sem nunca deixarmos o que possuíamos pelo Algarve, retornando todos os anos para vir apanhar a novidade (alfarroba e amêndoa) que dava para pagar a viagem e aforrar algum dinheiro. Nesse entrementes da primeira infância e pré adolescência vivemos sempre em contacto profundo com a natureza, por entre vales e rios rodeados de muitas e grandes árvores, onde quase nunca havia incêndios, e se existissem eram rapidamente combatidos por uma ou duas pequenas corporações de bombeiros, e com a ajuda da população, sem provocar desgraças a ninguém. Os campos e a mata andavam tratados, aproveitando-se a biomassa (lenha) para vender às padarias e restantes fornos industriais nas mais diversas indústrias que rodeavam Lisboa. Do norte e centro do país, à cidade, chegavam todos os dias camiões carregados de lenha de pinho para movimentar essas pequenas indústrias.

Aos poucos, com o advento do petróleo a partir dos anos cinquenta do século passado, as indústrias modernizaram-se e a lenha deixou de ser consumida. Nesse entretanto, o campo em geral por todo o país foi ficando aos poucos sem a mão de obra braçal que traziam os campos limpos, e os matos cresceram cercando aldeias e vilas. Os mais velhos já não tinha força para dar continuidade à sua antiga existência.

Tudo a que estamos assistindo hoje (aos incêndios), é o amalgamar de uma descontinuidade acontecida nos nossos campos e nas nossas terras em favor de uma agricultura de monocultura, e em desfavor da policultura: grandes superfícies de pinheiro manso e bravo ou de eucaliptal, e o maninho (desertificação) dos campos a transformarem esses campos em grandes potências de matéria-prima que a levará pela carga térmica possuída à ignição de grandes fogos a consumirem Portugal, que é tão verde e tão bonito.

E, nesta maldição, o resultado é uma desgraça: dor, morte e sofrimento de um país agonizante e à deriva sem viabilidade à vista para a resolução efectiva no combate aos incêndios que nos vão devorando.

 * Historiador-investigador da FLUC

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