Jornal diariOnline Região Sul

ONDE PÁRA O NOSSO EU?

Construímo-nos como as cebolas: camada após camada. Genéticas, culturais, religiosas, históricas, reais, virtuais, naturais, artificiais, verdadeiras, imaginadas. Enfim, um fartote. Vários mundos dentro de um minúsculo mundo feito pó. E nada.

Mas, construímo-nos ou vamos sendo construídos? Interessa? Somos assim. Sem sabermos quem somos, afinal. Onde pára o nosso eu? Quem é quem? Um montão de eus. Um nós. Um eles. Um caos organizado. Ou desorganizado? Nós, nós, nós.

E, contudo, existe um eu. No silêncio da solidão, sentimos que as nossas emoções, bem cá no fundo, são diferentes das do outro.  Não amamos como o outro, não reagimos como ele, não odiamos do mesmo modo. Cada um é como cada qual, diz o povo na sua sabedoria. Na nossa ilha da solidão, sentimos que, debaixo daquelas folhas sobrepostas, há uma essência especial que nos distingue do outro.

Mas, depois, o vórtice da vida embrulha-nos freneticamente e afunda-nos no mar dos nós. É mais cómodo e mais fácil nadar em cardume. Ou pastar em rebanho.

Vem-me à memória aquele pastor do Mestre Gil Vicente que, tendo levado o gado a pastar longe da aldeia, escapou da chuva que enlouquecera todos os habitantes da povoação que, no regresso, o atormentavam. Riam-se descontroladamente na sua cara, enfiavam-lhe os dedos nos olhos, arrancavam-lhe os cabelos, enfim, infernizavam-no.

Vendo-os encharcados, decidiu segui-los e chafurdar nas poças de água que abundavam nas ruas. E logo passou a ser como os outros, rindo desmioladamente, chincando-lhes os olhos, arrancando-lhe os cabelos.

Na verdade, parece que todos nos molhamos na mesma água e acabamos a viver plastificados, barbudos, rotos, palavrosos, desumanizados.

Cobardia. Hipocrisia. Convencionalismo.

Apenas uma mancha no mural da vida.

* Cidadão



Comentários

comentários