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Uma semana de incêndio deixou marcas na alma de Monchique (Síntese)

(Foto: Luís Silva)

O incêndio que deflagrou no dia 3 de agosto, na zona da Perna da Negra, e demorou 168 horas até ser dado como dominado vai deixar marcas na alma de Monchique, a sua serra, agora à espera de um reordenamento florestal que apague os erros do passado.

Em números, o Algarve esteve em chamas durante uma semana, 27 mil hectares foram consumidos, 300 pessoas chegaram a ser deslocadas das suas habitações, 17 casas de primeira habitação ficaram destruídas, onze pessoas desalojadas e os prejuízos não devem ser inferiores a 10 milhões de euros, segundo as estimativas da autarquia.

Pelo meio, apenas um único registo positivo, acentuado durante vários dias pelas autoridades oficiais – não houve vítimas mortais e, dos 41 feridos, apenas um foi grave, uma idosa de 72 anos.

Imagem 3D do sistema Copernicus com a área ardida até 8 de agosto

O incêndio rural, que atingiu igualmente os concelhos de Odemira, no distrito de Beja, Silves e Portimão, chegou a ser combatido por mais de 1400 operacionais, mais de 450 meios terrestres e 15 meios aéreos.

O alerta foi dado às 13:32 horas de sexta-feira, 3 de agosto, na localidade de Perna da Negra, no concelho de Monchique, para um fogo com duas frentes ativas, que imediatamente deixou antever um cenário perigoso e, nas horas seguintes, levou à evacuação preventiva de duas localidades, Taipas e Foz do Carvalhoso.

As áreas densas de floresta, nomeadamente eucaliptal, a orografia de declives acentuados e vales inacessíveis, as altas temperaturas, a pouca humidade relativa e o vento forte constituíram um «cocktail» explosivo que piorou ao longo de cada um dos dias de fogo.

As evacuações de pequenas localidades, que se foram repetindo ao longo dos dias, criaram polémica, pela forma como a GNR atuou, algumas vezes compulsivamente e contra os protestos dos moradores, que queriam ficar, reclamando a defesa das suas habitações. Algumas das pessoas conseguiram mesmo esconder-se ou fugir, contra os alertas emitidos pelas autoridades.

Fogo a chegar perto de casas em Monchique (Imagem TVI)

Se a frente ativa a norte foi rapidamente dominada, já no concelho de Odemira, a frente ativa a sul espalhou-se de forma incontrolável pelo concelho monchiquense, cercando Alferce e atingindo as portas da vila de Monchique ao final do terceiro dia, no domingo, 5 de agosto.

No dia seguinte, já com o concelho de Silves afetado, a Comissão Distrital de Proteção Civil reuniu-se e o seu líder, Jorge Botelho, também presidente da Comunidade Intermunicipal do Algarve, afirmou: “95% do perímetro do fogo está considerado dominado e há 5% que não está.”

Uma declaração que se revelou apressada, uma vez que, na tarde dessa segunda-feira, uma série de reacendimentos, provocadas pelo vento forte, causaram nova noite de caos, especialmente nas Caldas de Monchique, onde dois hotéis já tinham sido evacuados no dia anterior, e novamente às portas da vila.

Na terça-feira, quinto dia de incêndio, o ministro da Administração Interna anunciou uma mudança na coordenação do combate ao fogo, que até aí estava com o comando distrital da Proteção Civil e passou a ser assumida pelo comando nacional.

Foi na quarta-feira ao final da manhã que o primeiro-ministro, António Costa, abordou pela primeira vez a situação, considerando que o incêndio havia sido, até aí, “a exceção que confirmou a regra do sucesso da atual operação de combate”.

(Imagem: SIC)

Nesse mesmo dia, ao final da tarde, várias localidades do concelho de Silves foram evacuadas e o fogo chegou a Enxerim, um bairro da cidade silvense, onde populares e bombeiros tiveram de juntar-se para evitar a propagação das chamas num cenário infernal.

Também o Centro Nacional de Reprodução de Linces Ibéricos, de onde já tinham sido retirados 29 linces, por precaução, foi severamente atingido pelo fogo. E, pelo meio, toda a fauna local foi afetada de forma indelével.

Com um total de 299 pessoas deslocadas mas apenas um ferido grave, o fogo atingiu aí o seu pico mais negativo e só na quinta-feira, 9, é que o combate ao incêndio registou uma evolução positiva.

A segundo comandante nacional declarou, na quinta-feira à noite, que o incêndio estava “globalmente estabilizado” e, já na sexta-feira, 10, a Proteção Civil anunciou que estava oficialmente dominado e em resolução.

Também nessa sexta-feira, o primeiro-ministro António Costa visitou Monchique, onde, até em contacto com populares, voltou a frisar a importância de não se terem registado vítimas mortais e anunciou a criação de um grupo de trabalho, liderado pelo autarca local, Rui André, para apresentar uma proposta de reordenamento económico da serra de Monchique.

Dura há nove dias e deixa onze pessoas, de cinco agregados familiares, sem casa o incêndio de Monchique, com um perímetro superior a 100 quilómetros e que, segundo o Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais, consumiu cerca de 27 mil hectares.

A maior área ardida na região desde que, em 2003, um outro grande incêndio destruiu cerca de 41 mil hectares nos concelhos de Monchique, Portimão, Aljezur e Lagos, um pouco acima dos 26.442 hectares ardidos em Tavira e São Brás de Alportel em 2012.



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