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VALE A PENA LEMBRARMOS ALDA LARA

Alda Lara morreu, há 82 anos, em Benguela, Angola, com apenas 31 anos, na força da vida e da inspiração.

Na minha qualidade de mero cidadão, sem obra nem mérito, permitam-me, ao menos, que lembre alguém que deveríamos lembrar e cuja obra deveria estar em cima da nossa mesinha de cabeceira e ser devidamente estudada nas escolas de todos os países de língua oficial portuguesa, e não só.

Alda Lara, Jornal de Benguela 01-02-1965, p. 1.

Deixem que me inspire num dos seus poemas - Testamento -, para a "ressuscitar" e, humildemente, lembrar como a sua enorme sensiblidade  ainda hoje  tem um poder esmagador que vergonhará, certamente, esses "tótós", que opinam sobre tudo, mas se esquecem do principal: os sentimentos e os valores, incapazes de sonhar com um mundo mais justo.

O poema de Alda, não por acaso, abre com a oferta, «À prostituta mais nova/do bairro mais velho e escuro» dos seus «brincos, lavrados/Em cristal, límpido e puro». Ainda que mais nada escrevesse, estas palavras deveriam fazer corar de vergonha esses convictos defensores da prostituição como profissão. Esta associação  pureza/ prostituta mais nova é um hino à dignidade de um ser humano que um mundo hipócrita aproveita para pura satisfação carnal, sem um pingo de sentimentos humanos, muito perto de um acto animalesco. De que habilidades e estudos precisa uma prostituta para satisfazer os instintos mais reles de quem se aproveita da sua frágil condição? Ser prostituta nunca pode aceitar-se como profissão. Será sempre um símbolo da ausência de sentimentos, de humanismo, o que é comum aos que nunca souberam o que é ser-se PESSOA e apenas cobiçam as parangonas dos jornais tontos que com eles alinham. Fogos fátuos! É-nos permitido pensar que essas jovens prostitutas que, infelizmente, e cada vez em maior número, se mostram nas nossas ruas, são, tantas vezes, mais puras, mais corajosas e menos hipócritas que certas donas, que, de imaculado vestido branco, sobem as escadas dos altares.

Que outras prendas deixa ainda Alda Lara?

A uma «virgem esquecida», o seu vestido de noiva para, de certo modo, compensar tanta solidão e abandono; aos «humildes» «que nunca souberam ler», por culpa da sociedade desequilibrada em que tiveram a infelicidade de ser criados, deixa os livros, perfeitamente inúteis para quem sabe ler, mas não sabe pensar. Uns empecilhos. O seu «rosário antigo» será para o amigo «que não acredita em Deus».Uma escolha muito especial e muito actual, pois cada vez sabemos menos de Deus, mas cada vez mais temos a intuição de que quem se preocupa com as Pessoas, mais próximo estará de Deus. Alda Lara conhecia bem esse amigo especial e, sobretudo, conhecia o que é ser-se Pessoa.

E as crianças? Haverá algo para as crianças? Elas são o futuro, a esperança, o amor, a alegria, enfim são tudo quanto desejamos que aconteça de bom. Sendo assim, para as crianças ficam os seus poemas, feitos de dor, mas também de esperança, de luz que rasga a noite escura e aquece os corações.

Obrigado, Alda Lara!



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