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AINDA ALDA LARA

Os clássicos diziam que os poetas eram portadores de um dom divino que lhes permitia percepcionar, com inspiração e de um modo superior, aquilo que o comum dos mortais se cansa de viver sem darem conta da sua profundidade, oportunidade, relevância. Por mim, tenho por hábito ler um escritor, seja poeta ou prosador, tendo em conta a sua capacidade para tocar a minha sensibilidade, os meus valores, a minha humanidade, digamos assim. Quando descubro essa comunhão, fico por ali, a saborear, a meditar, a banhar-me num mar de águas remansosas, ou agitadas, sempre purificadoras.

Há tempos que não lia Alda Lara, que conhecia por deveres de ofício, submerso pelas exigências do cumprimento de programas que não nos deixam demorar muito neste ou naquele autor, mal nos permitindo sensibilizar os alunos para a sua leitura. Esta beleza de poder estacionar remansosamente num autor é um dom de aposentado que saboreio até à exaustão.

Voltemos, então, a Alda Lara, na esperança de sensibilizar outros apaixonados por esta poetisa que, numa tão curta passagem pela Terra, nos deixou um exemplo de vida e uma obra que é pena que não seja mais lembrada, sobretudo em África, que ela tanto amava.

"As Belas meninas Pardas" aparecem num poema, aparentemente, inocente na sua ironia, quase uma brincadeira de momento, uma nota de rodapé. Mas não. Este inspirado poema pertence à categoria daqueles que levavavm os clássicos a afirmar que ser poeta era ter um dom divino. De que nos fala o poema? Aparentemente, de um episódio tão frequente, nas ruas de Lisboa, onde ela o captou: um desfile de meninas de Colégio, ou instituição afim, fardadas, todas muito certinhas, bem arranjadinhas, lindas, sem risos tontos nem gestos descontinuados. Desfilam as meninas,que ela apelidou de "pardas", não só, certamente, por motivo do uniforme, mas também pela carga sugestiva de alguém que quer passar despercebido, neutro, sem cor, sem chamar a atenção. E estas meninas "pardas", "belas como as demais", "olham com olhos no chão./falam com falas macias./ Não são alegres nem tristes./ São apenas como são/todos os dias".

E que fazem estas meninas? Estudam, estudam muito, durante muitos anos, certamente preparando-se escolarmente para ocuparem um lugar de relevo na sociedade. "Sabem muito escolarmente", dirá Alda Lara, mas "Sabem pouco humanamente".

Estas meninas certinhas, nunca saborearam uma gargalhada espontânea, nunca tiveram um gesto desconcertado, nunca fizeram nada que "parecesse mal". Ao fim e ao cabo, nunca viveram. Cumpriram um programa. Não, certamente o seu programa, mas aquele que alguém desenhou para elas. Espera-as um marido que seja um bom partido, irão parir,  dar continuidade ao sistema, a uma cadeia de múmias que, no futuro, hão-de fazer leis, gerir empresas, tomar decisões, governar o país. Mas, como, se nunca viveram humanamente?

E, a nossa poetisa, com argúcia, com a tal argúcia que distingue o escritor com estaleca daquele que escreve de acordo com os modismos, alerta-nos:

"O mais, são histórias perdidas...

Pois que importam outras vidas?...

outras raças?..., outros mundos?...

que importam outras meninas,

felizes, ou desgraçadas ?!..."

Afinal, esta educação "parda" continua bem viva em todo o mundo, (de certeza no mundo lusófono, com relevo para África, onde muitos alunos não frequentam a escola por falta de recursos para comprarem a estúpida farda). É previsível, portanto, que uma educação "parda" desague no tipo de países, de governantes e de sociedades que continuam a teimar num mundo desajeitado, onde há lugar só para alguns, segundo a cor, a cultura, a religião, a maneira de estar na vida. É tempo de mudar esta educação cinzenta para uma educação activa, com janelas escancaradas para a vida, onde todos tenham direitos  e oportunidades iguais.



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