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APRENDER A APRENDER

Uma sociedade que centra o ensino no cumprimento dos conteúdos programáticos é uma sociedade condenada ao fracasso.

Quando me interrogo acerca das causas que amarram Portugal ao subdesenvolvimento, não deixo de colocar como factor principal o modo como se ensina no nosso país. A grande maioria dos professores portugueses não recebe formação adequada aos desafios do nosso tempo. As aulas de meninos bem comportados que ouvem atentamente ou transcrevem para os cadernos montes de apontamentos debitados pelo professor, já eram. Também acontece que as salas de aula se transformem em salas de convívio, onde cada um faz quase o que lhe apetece, num ambiente descontrolado que leva muitos docentes ao esgotamento, ao desconforto e, no limite, ao psiquiatra. A aula tem de ser uma oficina. Dinâmica. Com alunos investigadores, questionadores, envolvidos. Depois de uma breve apresentação do que se pretende tratar na aula, o papel do professor é incentivar, acompanhar as pesquisas, provocar os debates, ajudar a concluir. O papel do professor é ensinar o aluno a aprender. Por exemplo, numa aula de Português, a disciplina que leccionei, não posso conceber que se estude a biografia de um autor, que se conheça o nome das suas principais obras, mas, não se faça uma análise exaustiva de, ao menos, um texto. Recuso-me a aceitar que não se acompanhe o aluno na leitura de uma obra completa. Ler resumos? Estudar por manuais concebidos para alimentarem a preguiça do professor e do aluno, com a papinha programática já  fabricada e digerida? Não é sério. Não ensina. Não educa. Cria monstros empalhados, repetitivos, rotineiros. Papagaios.

Basta estarmos minimamente atentos à realidade da vida para concluirmos que a educação, em Portugal, sofre de uma doença, não direi, sem remédio, mas, de cura muito problemática, como nos mostra a comunicação social, diariamente.

Há dias, anotava-se a sentença de uma juíza que decidiu que as faltas de uma cigana à escola eram próprias da cultura do seu povo e, portanto, não tinha que cumprir a escolaridade obrigatória a que as leis portuguesas obrigam. Saberá ler, esta senhora juíza? Terá a noção de que há tradições que matam, que mutilam, que escravizam, com relevo para as mulheres? Achará, esta juíza, que é natural aceitar a excisão genital das jovens, aceitará a prática dos casamentos precoces que arruinam, sobretudo, jovens africanas, enchendo-as de filhos, roubando-lhes o direito a ser livres, matando-as mesmo, pois, como eu tive ocasião de presenciar, não estando a jovem anatomicamente preparada para o parto, morre, com a criança entalada entre as pernas, muitas vezes, depois de uma consulta ao feiticeiro?

Querem outro exemplo de uma educação falhada?

Todos os anos, por esta altura, vem à baila o problema do peso das mochilas. Exige-se a intervenção do governo, quiçà, mais uma lei para regular o assunto. Será, assim, tão difícil a solução de um problema que só existe porque todos, incluindo os alunos, os pais, os encarregados de educação e todos quantos, numa escola, deveriam tomar decisões, nada decidem? Parece-me apenas um problema de bom senso. Assistirão, os pais, às reuniões da escola? Saberão que podem resolver, em diálogo, com os órgãos competentes da escola, este magno problema? Saberão, ainda, que, se não obtiverem respostas adequadas dos professores, poderão, simplesmente, recusar a compra das mochilas? Este é o exemplo clássico de como o esnsino permanece desadequado, antiquado, perdido na bruma dos tempos. Então, na era dos tablets e de todas as conquistas das novas tecnologias, ainda andamos a carregar as crianças, com toneladas de livros? Não é, por acaso, que as engenharias passaram à frente da medicina.

Certamente que o Estado e todos os Portugueses agradecerão aos Pais que recusem as mochilas, pois pouparão ao erário público, em saúde, em manuais e noutros materiais, milhões de euros, tão necessários para a educação dos professores e melhoria das condições da escola. Um tablet tem tudo lá dentro. Há que aprender a trabalhar com as novas tecnologias e as suas exigências. Dispensamos os gritos e as manifestações. A solução está ao alcance dos pais e da esola. Haja bom senso! É urgente aprender a aprender.



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