Jornal diariOnline Região Sul. O seu portal de notícias Algarve e Alentejo Portugal

Ibn Qasî no Teatro Lethes

Paulo Loução - Investigador

De oito a trinta de Novembro próximo, a ACTA levará ao palco a obra «Ibn Qasî - o rei iniciado do Algarve» da autoria de José Carlos Fernández. Trata-se de um acontecimento cultural de grande significado que merece ser destacado.

Ibn Qasî foi uma figura ímpar na história do nosso território, um místico e um guerreiro, ou se quisermos, um mestre sufi que idealizou um projecto político baseado nos fundamentos da sabedoria interna para a região do Algarve.

Estamos na prmeira metade do século XII, Ibn Qasî não se identifica com a versão mais literalista e rígida do islão. Procura uma via interna, dedica-se à contemplação e, na sequência, constrói o ribat da Ponta da Atalaia (Arrifana, Aljezur) criando, assim, com os seus discípulos, uma cavalaria espiritual que viria a conquistar a taifa de Silves. Digamos que seria um templário do islão, e a verdade é que viria a estabelecer uma aliança com o rei templário cristão D. Afonso Henriques. Encontramos o registo desta aliança nas crónicas muçulmanas, dando nota que para selar esta aliança, D. Afonso Henriques ofereceu a Ibn Qasî um cavalo, um escudo e uma lança. Todos eles símbolos da cavalaria espiritual que transcende a época história e a circunstância, uma vez que se baseia na vitória do guerreiro sobre si próprio, vitória essa que lhe dá acesso à inspiração e à ansiada paz interior. No islão interno esta cavalaria espiritual é conhecido como a "futuwwa", através da qual se pratica a grande Jihad, ou seja, a guerra interior.

Foi um raio de luz que deixou a sua marca nesta antiga terra dos cinetes, ainda não era o tempo para que a sabedoria e a tolerância se tornassem um projecto político estável, e em 1151, o sábio Ibn Qasî seria assassinado à traição pela ala radical do islão, no caso almóadas que o traíram.

Ficaram os seus discípulos, os seus tratados filosóficos, as suas poesias. O seu saber seria reconhecido por Ibn Arabi, o mestre dos mestres da pura filosofia espiritual do islão.

Ibn Qasî era muito provavelmente de ascendência romana, da família dos Cassius, e quando à hora do entardecer chegamos ao lugar mágico da Ponta da Atalaia onde sentimos a força das ruínas do seu ribat, e sentimos a luminosa esfera de luz incendescente entrar pelo nosso coração e deixar-se submergir pelas misteriosas águas atlânticas, verificamos a continuidade do milenar culto à finisterra ocidental.

Devemos também referir que o autor desta peça, José Carlos Fernández, para além de dramaturgo, é um filósofo e investigador com grande conhecimento da essência filosófica que inspirou as grandes civilizações do passado, e também um conhecedor em profundidade da plêiade de magnos filosófos que iluminou em certos momentos a história do Alandalus. Dificilmente encontraríamos em Portugal, alguém mais habilitado para evocar Ibn Qasî. No caso, um texto de grande intensidade poética, como já o referiu Elisabete Martins da ACTA.

Temos, assim, mais do que motivos suficientes para não perdermos este Ibn Qasî no Teatro Lethes.

Fiquemos com um dos poemas de Ibn Qasî:

Tira as sandálias e ascende altivo

Acima das estrelas cintilantes!

Une-te à verdade!

Quem a desprezou

ficou chorando por todas as coisas,

O olhar mais firme

- tal como o céu -

Convoca a beatitude da verdade clara.

Descalça as sandálias, sinceramente,

Desde os umbrais do esplendor.

Une-te ao ser!

Vale-te mais essa união

Do que todas as provas da Razão.

Quem ouviu o que gritei à multidão,

Acerca da realidade da união,

Tem de deixar o mundo da dualidade,

Que são duas sombras sob o sol.

O espírito venceu a dor: ficou perto do distante.

Ó mãe dos meus irmãos!

O amado está a meu lado!

Ó povo se a paixão me der a morte

Toma o meu amor como vingança,

E vinga-me com ele!

Investigador



Exit mobile version