Fábio Nobre - Escritor e Poeta

Meditação: a possibilidade de ganhar possibilidades

A meditação pode fazer uma diferença que nunca tinha imaginado. Iniciei esta prática no fim de março, em pleno confinamento. Tanto tempo em casa fez com que parasse de procrastinar algo que queria começar a fazer um dia destes. Baixei a aplicação Waking Up App do neurocientista e filósofo americano Sam Harris, e paguei a anualidade: sessenta euros. Agora, decorridos sete meses, penso que este poderá ter sido o melhor investimento que fiz na vida.

Não há soluções miraculosas. O que há são ferramentas para nos ajudar a conhecer a nós mesmos, ou o vazio onde parecemos acontecer. Só conheço a variante mindfulness, e sou um leigo em quase tudo o que diz respeito a esta prática ancestral. Mas sei algumas coisas. Entre elas, que é difícil começar e é difícil permanecer, da mesma forma que é difícil iniciar uma prática nova, seja um desporto ou um ofício. É preciso empenho. E é preciso ajustar espectativas. E é preciso estar preparado para um dia parecer a coisa mais simples do mundo e no dia seguinte parecer impossível continuar. Poderia aventar muitas razões pelas quais isto sucede, mas falarei das mais óbvias, que são também as mais imediatas.

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Estamos tão habituados ao ruído e a estar distraídos, seja na presença de mais pessoas, seja com atividades que garantam a ausência de tédio, que a ideia de nos sentarmos quietos e direitos numa cadeira ou colchão pode parecer impossível a muitos. E talvez o seja - longe de mim afirmar que esta prática é adequada para toda a gente, isso requereria informações que não possuo. No entanto, para mim, a questão colocou-se em saber qual era o mal menor: treinar-me a ficar em silêncio, entregue somente aos conteúdos da minha consciência, ou sentir-me constantemente assoberbado pelo fluxo de pensamentos?

Há um certo sentimento de estranheza em quem faz meditação. Já vi isso acontecer com vizinhos meus, quando me sentava na varanda para mais uma sessão, sei que me olham como se fosse meio maluco. Afinal, quem se senta e fica estático e em silêncio durante vários minutos? Para quem nunca se interrogou acerca do facto de ser passageiro dos seus pensamentos, tal atitude pode parecer completamente estapafúrdia.

Pese embora esteja presente nas duas razões elencadas acima, a questão do ego merce um destaque especial. Esta ferramenta psicológica, inerente ao ser humano, e tão importante em várias ocasiões, é também um escolho quando queremos observar o que é sem interrupções. Quem estiver a começar esta prática, notará que os pensamentos irrompem permanentemente sem que possamos fazer nada para o impedir. Talvez nunca seja tão claro como nesse momento o quão reféns somos desse ser pensante que nos habita mas que nos foge ao controlo. Isso pode ser assustador e uma razão para as pessoas nunca começarem a meditar ou se afastarem da prática pouco tempo depois de a ter começado.

Para além destes três motivos pelos quais muita gente nunca chega a experimentar esta prática, existem ainda as armadilhas egóicas de quem já medita. Embora de modo algo caricaturado, é possível ouvir alguém dizer que deixou de meditar porque atingiu a iluminação, ou que medita por mais tempo que o fulano tal ou há mais anos, ou se sente na posição de dar conselhos específicos devido à sua experiência na área, enfim, os exemplos são variados e certamente o leitor já entendeu onde eu queria chegar. Se há algo que podemos ganhar é a atenção a nós mesmos, embora talvez só seja omnipresente em budistas que meditam dezasseis horas diárias, não sei. O que sei é já dei por mim a reparar em comportamentos meus que antes passavam incólumes, sem o crivo da consciência. Não quer dizer que deixe de errar ou de os fazer, mas quer dizer que ganhei atenção sobre eles, e com a atenção vem a possibilidade de os alterar gradualmente.

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Voltarei a falar deste tema que me é muito caro, mas acabarei com uma frase que me surgiu agora mesmo e parece encaixar na perfeição ao que tem sido a meditação na minha experiência pessoal: a prática pela qual eu ganho possibilidades.

* Escritor e Poeta



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