Vítimas de Covid-19 são cremadas na Índia; recorde de casos e mortes sobrecarrega o país. | Foto: Mayank Makhija - 26.abr.2021/NurPhoto via Getty Images

O mundo está no meio da pior crise de Covid-19 até agora

A Covax, iniciativa global de compartilhamento de vacinas, ainda é a melhor forma de algumas nações adquirirem as doses

Há um ano atrás, quando a pandemia da Covid-19 ainda estava em seu início, o chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS) enfatizou que uma abordagem global seria a única saída para a crise.

“O caminho a seguir é o da solidariedade: solidariedade em nível nacional e solidariedade em nível global”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, numa conferência de imprensa em abril de 2020.

Esta notícia, avançada pela CNN Brasil, descreve-nos que rapidamente, avançando 12 meses e eis as cenas devastadoras na Índia, onde hospitais foram sobrecarregados por uma onda de casos de Covid-19 e milhares estão a morrer por falta de oxigénio, deixando perceber que a grande maioria dos avisos foram ignorados.

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A Índia não é o único foco da Covid-19 no mundo. A Turquia entrou no seu primeiro lockdown nacional na quinta-feira (29), um passo indesejável causado pelas taxas de infeção que agora são as mais altas da Europa.

O Irão relatou o maior número de mortes diárias por Covid-19 até agora no início da semana passada, com muitas cidades forçadas a um lockdown parcial para conter a propagação do vírus. O presidente iraniano, Hassan Rouhani, disse que o país está a sofrer uma quarta onda de infeções.

Caminho a seguir é o da solidariedade

Em grande parte da América do Sul, o quadro também é sombrio, descreve-nos a notícia veiculada pela CNN Brasil.
O Brasil, com mais de 14,5 milhões de casos confirmados de coronavírus e cerca de 400 mil mortes, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins, continua a deter a maior taxa diária de mortes por Covid-19 por milhão no mundo.

Alguns países oferecem ajuda à medida que surgem pontos críticos – por exemplo, enviando em concentradores de oxigénio, respiradores e outros suprimentos médicos para a Índia nos últimos dias. Mas a resposta global coordenada solicitada por Tedros um ano atrás (e repetidamente desde então, pela OMS e outros órgãos de saúde globais) permanece indefinida.

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Ao mesmo tempo em que alguns países ocidentais estão de olho num retorno a uma vida mais normal nas próximas semanas, o quadro mundial continua terrível. O número de casos globais de Covid-19 aumentou pela nona semana consecutiva e o número de mortes subiu pela sexta semana consecutiva, como informou a OMS no dia 26 de abril.

Tedros Adhanom, diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde, falou sobre situação da pandemia no mundo - Foto: Reprodução/CNN Brasil (30.abr.2021)

“Vamos colocar os números em perspetiva: tivemos quase tantos casos globalmente na semana passada quanto nos primeiros cinco meses da pandemia”, disse Tedros.

A Covax, a iniciativa global de compartilhamento de vacinas que fornece doses com desconto, ou grátis, para países de baixa renda, ainda é a melhor hipótese que a maioria tem de adquirir as doses que podem colocar a pandemia sob controle.

Mas a iniciativa depende fortemente da capacidade da Índia, por meio do seu Serum Institute of India (SII), de produzir doses da vacina AstraZeneca, que são a pedra angular da Covax.

Embora a Índia tenha prometido 200 milhões de doses para a Covax, com opções para até 900 milhões a mais, a serem distribuídas a 92 países de baixo e médio rendimento, o rápido agravamento no país levou o governo indiano a mudar o foco da iniciativa para priorizar os seus próprios cidadãos.

“Desequilíbrio chocante”

Ao mesmo tempo, os países ocidentais têm sido criticados por fazer stock de vacinas. Alguns, incluindo Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, encomendaram muito mais doses de vacinas do que o necessário.

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O secretário de saúde do Reino Unido, Matt Hancock, disse na semana passada que o país (que agora está vacinando pessoas saudáveis na faixa dos 40 anos, já tendo oferecido pelo menos uma dose a todos os seus residentes mais velhos e vulneráveis) não tinha vacinas sobressalentes para enviar à Índia. O governo do Reino Unido disse que compartilhará as doses excedentes num estágio posterior.

O SII “está fabricando e produzindo mais doses de vacina do que qualquer outra organização. E, obviamente, isso significa que eles podem fornecer vacina às pessoas na Índia a preço de custo”, disse Hancock.
“A Índia pode produzir a sua própria vacina, com base na tecnologia britânica, e essa é a maior contribuição que podemos dar e que venha efetivamente da ciência britânica”.

Nos Estados Unidos, todos os cidadãos com 16 anos ou mais agora podem tomar a vacina para a Covid-19 e 30% da população está totalmente vacinada, de acordo com dados de sexta-feira (30) do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. No início da semana, a Casa Branca disse que doaria até 60 milhões de doses da vacina da AstraZeneca (da qual tem um stock, mas cujo uso ainda não foi autorizado no país) nos próximos meses após uma revisão de segurança federal.

Bem mais da metade da população total de Israel recebeu pelo menos uma dose da vacina contra o coronavírus, e o país está abrandando as restrições.

No início de abril, apenas 0,2% das mais de 700 milhões de doses de vacinas administradas globalmente foram dadas em países de baixo rendimento, enquanto nações de alto e médio alto rendimento respondiam por mais de 87% das doses, de acordo com Tedros, da OMS.

Chile utilizará a Coronavac, importada de Pequim, para iniciar vacinação em massa. - Foto: Thomas Peter/Reuters

Em países pobres, apenas uma em mais de 500 pessoas recebeu a vacina para a Covid-19, em comparação com quase uma em cada quatro pessoas em países de alto rendimento. Tedros descreveu o contraste como um “desequilíbrio chocante”.

“Alguns [dos 92 países de baixo rendimento] não receberam nenhuma vacina, nenhum recebeu o suficiente e agora outros não estão a receber os seus lotes de segunda dose a tempo”, Tedros disse num evento de doadores globais em 15 de abril.

“Mostramos que a iniciativa Covax funciona. Mas, para cumprir todo o seu potencial, precisamos que todos os países assumam os compromissos políticos e financeiros necessários para financiar totalmente a Covax e acabar com a pandemia”.

Embora muitas nações mais ricas tenham prometido fundos, elas estão menos dispostas a desistir de suas vacinas para a Covid-19. Na semana passada, a França tornou-se o primeiro país a doar doses da AstraZeneca do seu stock doméstico para a Covax.

“O problema é que as pessoas com poder são, por via de regra, os governos nacionais”, afirmou Michael Head, pesquisador sénior em saúde global da Universidade de Southampton, na Inglaterra.
“A OMS oferece orientação, mas não tem muito poder. E é a OMS que trabalha em coisas como equidade para garantir que o mundo esteja o mais protegido possível”.

“Obviamente, os governos nacionais estão lá para agir em prol dos interesses de seus próprios cidadãos e, quando se trata de uma pandemia, o mundo é bastante egoísta, todos os países são muito egoístas – até certo ponto, eles cuidam de seu próprio povo primeiro”, afirmou o pesquisador.

Solução global

Iniciativa liderada pela OMS, pela Vaccine Alliance (conhecida como GAVI) e pela Coalition for Epidemic Preparedness Innovation, a Covax foi anunciada no ano passado como a “única solução verdadeiramente global” para a pandemia, garantindo acesso global equitativo às vacinas.

O seu objetivo inicial era ter dois bilhões de doses de vacinas disponíveis até ao final de 2021, o que deve ser suficiente para proteger as pessoas de alto risco e vulneráveis, bem como os profissionais de saúde da linha de frente nos países participantes, de acordo com a GAVI.

Mas, mediante a acumulação de vacinas nos países ricos e a interrupção do fornecimento, a Covax tem-se esforçado para cumprir o seu cronograma de entrega.
O primeiro lote de doses da vacina para Gana, por exemplo, foi entregue em 24 de fevereiro. Até ao momento, a iniciativa já despachou 49,5 milhões de doses de vacinas contra o coronavírus para 121 países – muito aquém do plano original de distribuição 100 milhões de doses até o final de março.

“Nossa meta inicial era atingir 20% da população, com foco específico nos 92 países e territórios de menor rendimento elegíveis para apoio do Compromisso de Mercado Avançado GAVI Covax”, disse um porta-voz da GAVI.

“Fechamos acordos para muito mais do que esse montante, embora o contexto de oferta restrita nos mercados globais signifique que a primeira metade do ano tenha tido atrasos no envio das doses aos países. Com o financiamento correto em vigor, acreditamos que será possível financiar e garantir 1,8 mil milhões de doses para essas 92 economias de baixo recurso em 2021”.

A luta da Covax é um exemplo revelador dos obstáculos para uma resposta global coordenada, à medida que cada país prioriza seus próprios interesses.

A iniciativa atua comprando um portfólio de vacinas contra o coronavírus em grandes quantidades a um preço mais baixo direto nas empresas farmacêuticas e distribuindo-as aos países participantes. Os países de alto rendimento podem comprar as vacinas a preços mais baratos negociados pela Covax (e talvez para fazer uma reserva para além dos seus próprios acordos bilaterais). Já as nações mais pobres que de outra forma não teriam condições de pagar essas vacinas, podem obter as doses a um preço com desconto ou de graça.

E o extenso artigo da CNN Brasil, esclarece ainda que desde o início, a Covax tem lutado para garantir vacinas dos fabricantes, com as nações ricas apressando-se para abocanhar o fornecimento global de vacinas por meio dos seus próprios acordos bilaterais com empresas farmacêuticas. De acordo com dados compilados pela Universidade Duke, os países de alto recurso possuem atualmente 4,7 mil milhões de doses de vacinas para a Covid-19, enquanto a Covax comprou apenas 1,1 mil milhões.

Além disso, apenas vacinas aprovadas pela OMS podem ser distribuídas pela iniciativa, o que limita o seu portfólio. Até agora, apenas as vacinas da Pfizer-BioNTech, Moderna, AstraZeneca e Johnson & Johnson receberam luz verde para uso de emergência pela OMS.

Embora ostentem a alta taxa de eficácia de cerca de 95%, as vacinas da Pfizer-BioNTech e Moderna requerem armazenamento em baixa temperatura – e muitos países de baixo rendimento simplesmente não têm essa capacidade de armazenamento refrigerado.

Portanto, antes da vacina Johnson & Johnson ser aprovada pela OMS em março, a Covax dependia muito da vacina AstraZeneca, que pode ser mantida em temperaturas normais de qualquer frigorífico. No início de março, a empresa disse que a meta era entregar 237 milhões de doses da AstraZeneca a 142 países até ao final de maio. A meta dificilmente será alcançada devido ao atraso no fornecimento da Índia.

“Muitas das vacinas da AstraZeneca são feitas na Índia. Mas a Índia tem milhares de mortes todos os dias e está completamente sobrecarregada, então este é outro desafio da Covax”, disse Dale Fisher, professor de doenças infeciosas da Universidade Nacional de Singapura.



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