Mário Frota *

Política de Consumidores: uma austera, apagada e vil tristeza espelhada no Programa do Governo (II)

Do pretenso Programa de Governo que o Parlamento votou:

“…

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A política de consumidores deve ocupar um espaço decisivo na recuperação económica, a nível nacional e anível europeu.

Deste modo, dar-se-á também seguimento à ‘Nova Agenda [Europeia] do Consumidor’, cujasconclusões foram aprovadas no âmbito da Presidência Portuguesa do Conselho da UniãoEuropeia, com enfoque na transição gémea (verde e digital), na cooperação e nos consumidoresmais vulneráveis.

Nesse sentido, o Governo propõe-se a:

  • Instituir o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor e o Portal do Consumidor, numalógica de balcão único, aprofundando e articulando ferramentas e mecanismos,existentes e a criar, por forma a reforçar a notoriedade dos direitos dos consumidores edas diferentes respostas para o seu esclarecimento e eventual resolução de conflitos;
  • Definir o Estatuto do Consumidor Vulnerável, o qual contemplará um conjunto de critériose respectivos direitos correspondentes a esta condição;
  • Criar a Comissão das Cláusulas Contratuais Gerais, de modo a prevenir o uso de cláusulascontratuais gerais abusivas e dar visibilidade adicional aos prestadores de bens e serviçosque incluem cláusulas contratuais declaradas judicialmente como abusivas nos seuscontratos de adesão;
  • Rever o Código da Publicidade, definindo mecanismos para limitar o contacto de teorcomercial com consumidores à sua expressa declaração de disponibilidade nesse sentido,assim como prevenir e punir as técnicas agressivas e inapropriadas de vendas epublicidade;
  • Rever o regime jurídico das acções colectivas, para protecção dos interesses colectivos dosconsumidores;
  • Transmitir aos consumidores o maior conjunto de informação possível sobre a
    composição dos produtos agro-alimentares, a sua origem
    , bem como o impacto ambientalda sua produção, estimulando a adopção de hábitos de vida saudáveis;
  • Definir e difundir, em cooperação com as associações de produtores e as associações deconsumidores, um Índice de Reparabilidade de Produtos, prosseguindo a adopção deinstrumentos que permitam ao consumidor obter informação e compará-la, no que à vidaútil dos produtos diz respeito;
  • Garantir a dinamização da Rede de Apoio ao Consumidor Endividado, com o intuito deassegurar uma resposta de acompanhamento próxima, ágil e permanente em casos desobreendividamento;
  • Avaliar o quadro regulatório das comissões bancárias, assegurando os princípios datransparência ao consumidor e da proporcionalidade face aos serviços efectivamente prestados e continuando, simultaneamente, a assegurar a inexistência de comissõesassociadas ao levantamento de dinheiro e outros serviços disponibilizados nas CaixasMultibanco;
  • Dar continuidade ao reforço dos recursos humanos e materiais da Autoridade deSegurança Alimentar e Económica (ASAE), prevendo o alargamento do seu mapa depessoal, no sentido de garantir a protecção dos consumidores e a sã e leal concorrência, eatendendo aos desafios e oportunidades da transição digital, designadamenteimplementando o sistema de tramitação electrónica das contra-ordenações económicas;
  • Acompanhar e aprofundar o Livro de Reclamações, hoje disponível nos formatos físico,electrónico e móvel, como instrumento crucial da política pública de defesa doconsumidor, assegurando que o mesmo constitui uma base para a indemnização e nãoapenas para aplicação de eventual coima;
  • Criar condições para o alargamento e modernização da rede de centros de arbitragem de consumo, designadamente no que concerne à sua presença territorial e através da criaçãode uma plataforma digital para resolução alternativa de litígios;
  • Permitir que as entidades reguladoras determinem, mediante injunção, a restauração da situação anterior à prática da infracção;
  • Apostar na promoção de iniciativas de informação, sensibilização e capacitação, dirigidas sobretudo aos consumidores mais vulneráveis e com especial enfoque em domínios quecarecem de maior divulgação;
  • Continuar a fomentar a cooperação a nível europeu e internacional, factor cada vez maisrelevante para a protecção dos consumidores, nomeadamente no âmbito das comprasonline.

Estes os pontos de uma desconchavada e insignificante política de consumidores que o Governo se propõe “executar”…

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Na próxima edição, a crítica a esta “mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma”…

Para ler o artigo anterior, clique aqui.

Presidente emérito da apDC – DIREITO DO CONSUMO - Portugal

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